Cultura Maker: O Podcast Como Ferramenta Educacional em Administração
- Leonardo Campos

- 30 de jul. de 2024
- 6 min de leitura
De estudantes passivos, os envolvidos na proposta podem se transformar em figuras ativas nas dinâmicas em sala de aula, potencializando a aprendizagem.
O mundo mudou, mude também. Uma das máximas da era da recente pandemia que nos assolou em 2020 trouxe à tona, de forma veemente, debates sobre mudanças em todas as esferas de nossas vidas. No âmbito da educação, foco da proposta de aula em questão, estas reflexões nem são tão recentes assim. Há tempos discute-se o anacronismo do modelo tradicional de ensino, geralmente focado em docentes que levam conteúdos para a sala de aula, por meio de estratégias expositivas, para memorização dos assuntos que serão sugeridos como tópicos avaliativos em seminários e provas. Com as metodologias ativas de ensino e aprendizagem, temos oportunidades de modificar cenários e transformar a sala de aula num campo de exercício da cidadania. Levar o conhecimento construído nestes espaços e aplica-los no cotidiano dos estudantes, em suas vidas pessoais, profissionais e sociais.
É aqui que entra a Cultura Maker, trajeto que permite a pavimentação de uma aprendizagem em busca de soluções criativas. Inovação, sustentabilidade, compartilhamento de ideias, fuga das escalas industriais de percepção das coisas, tendo em vista a produção personalizada. É a filosofia do “Faça você Mesmo”, algo que delineia a possibilidade, diante dos avanços tecnológicos frenéticos dos últimos anos, onde qualquer pessoa, devidamente orientada, pode consertar ou construir os seus próprios objetos. Ao ganhar força na década de 1960, haja vista os movimentos da cultura punk e seus ideais de independência e busca por quebra de regras absolutas demais, a Cultura Maker vai do âmbito doméstico ao empresarial, geralmente se pautando no cooperativismo e no compartilhamento de ideias.
É também um movimento de agilidade nos processos, bem como democratização do conhecimento, onde o consumidor dita as regras. Muitas empresas, por sinal, tiveram de modificar as suas culturas organizacionais, tendo como foco flexibilizar diante deste cenário de transformações. Em linhas gerais, é a cultura da criação de protótipos, tanto para produtos de uso nas esferas domésticas quanto no contexto comercial. Na educação, setor que nos interessa por aqui, o estudante se posiciona como protagonista do processo, e assim, faz da educação um espaço para experimentação e prática do conhecimento. A sala de aula, adaptada como um laboratório, permite a maior interação entre estudantes e professores, aqui como mediadores de processos, não mais responsáveis por ocupar a posição de inserir conteúdos em seus receptáculos humanos. Na contramão da hierarquia rígida, o docente instiga, testa possibilidades, tece propostas para a construção de projetos inovadores, focados na prototipagem, num esquema que dialoga com os caminhos da ferramenta Design Thinking.
Comunidade, cooperação e participação estão como pilares básicos da Cultura Maker. É um caminho para estimulação dos estudantes, mais preparados para habilidades do mercado de trabalho. Nas situações de proatividade, liderança, preparo diante da tecnologia e ações em equipe, professores e alunos se mobilizam para criar soluções e lidar, nesta jornada, com a solução de problemas reais. Por meio de intervenções, exercem as suas respectivas cidadanias e, assim, experimentam uma abordagem colaborativa para encontrar as respostas para aquilo que procuram. E o estímulo cresce exponencialmente, pois ao enxergar as suas ideias se tornando realidade, entendem o quão importante é ser protagonista de sua caminhada.
Ademais, a Cultura Maker é a prática, algo que popularmente chamamos de mão-na-massa: soluções são geradas, riscos são assumidos em testagens, com os erros, os envolvidos podem aprender e modificar as suas rotas, saindo do engessamento das práticas tradicionais previsíveis. Neste esquema de aproximação entre professores e estudantes, processos são atualizados, o que é criado se torna portfólio, não um mero trabalho descartado ou engavetado depois do recebimento da nota. Para tornar essa realidade mais próxima das minhas dinâmicas como docente dos cursos de Administração e Comunicação Social da Rede UNIFTC, especificamente Salvador, foram realizadas atividades embasadas na Cultura Maker, voltada ao esquema de construção, por parte dos estudantes, dos conteúdos que compõem o próprio componente curricular em que estudam.
A proposta aqui apresentada versa sobre a realização da primeira temporada da série Comportamento Organizacional em Perspectiva, um conjunto de 11 podcasts gravados ao longo do semestre 2023.1, focado em analisar filmes pontuais sobre o assunto, assistidos pelos estudantes, refletidos em sala de aula e transformado em conteúdo para site, redes sociais, dentre outros suportes, numa jornada de disseminação de ideias que unifica a experiência do docente mediador responsável pelo processo, juntamente com os próprios estudantes. Com esta proposta, a aula sai do esquema fixo e se torna um espaço invertido, onde o que será tópico temático para debate é construído pelo professor, numa associação com as contribuições dos estudantes. Como premiação, ganham um certificado de produção e editoria de podcast, colocam estas informações em seus perfis profissionais, aumenta assim as habilidades técnicas e, consequentemente, as socioemocionais, assegurando uma caminhada para o mercado de trabalho na área que escolheram para se estruturar como a base de suas carreiras.
A preparação do terreno de aprendizagem
O componente curricular escolhido para as ações foi Comportamento Organizacional, ministrado para os estudantes do 2º semestre do curso de Administração. A ementa explora questões acerca das estratégias de negociação (distributiva, colaborativa, adversária e integrativa), relacionamentos interpessoais, a liderança e seus tipos, cultura e clima organizacional, ética e responsabilidade social, diversidade nos ambientes corporativos, estratégias para resolução de conflitos, comunicação não-violenta, comunicação organizacional e comportamento humano nas organizações. A proposta de podcast realizada com os estudantes e apresenta aqui contempla questões sobre liderança, especificamente, a liderança autocrática, ainda bastante recorrente e polêmica, refletida na aula com o filme O Diabo Veste Prada, de 2006, dirigido por David Frankel.
A estrutura deste componente curricular, realizado na modalidade remota, traz uma trilha de ensino e aprendizagem com 16 encontros, postados na plataforma Blackboard da UNIFTC. Cada encontro possui um texto base, um podcast, um screencast, seis videoaulas, quatro questões de avaliação diagnósticas e duas de consolidação do conhecimento. Ao entrar na aula síncrona, realizada todas as quintas-feiras do semestre 2023.2, os estudantes desenvolvem as suas atividades ao longo de três unidades, isto é, inicia-se a aula 08h10 e finalizamos às 10h50.
Dividido em blocos, o encontro se reveza entre um breve momento expositivo, resolução de questões ao estilo ENADE, em especial, as questões de complementação simples e asserção/razão, seguidas da emissão do podcast preparado entre professor e um grupo de estudantes, para um debate mediado depois, com divulgação nas redes sociais, aplicativos e registro da atividade nos perfis profissionais dos estudantes, pois como é uma atividade de parceria que gera carga horária adicional para os envolvidos, todos recebem como bonificação pelo processo um certificado. Assim, sentem-se motivados ao produzir conteúdo para a própria aula e ampliar as habilidades técnicas, conhecidas no campo da Administração como hard skills, dando maior ênfase aos seus perfis profissionais, pois muitos dos estudantes ainda estão na busca pela primeira experiência no mercado de trabalho.
A inserção da Cultura Maker, nas aulas, começa logo após a segunda semana do semestre. Cada equipe fica responsável por, juntamente comigo, produzir o podcast. As etapas são as seguintes:
01 Sorteio dos tópicos temáticos (a escolha do filme para reflexão no podcast)
02 Os estudantes assistem ao filme e fazem as suas anotações.
03 Após se reunirem e roteirizarem o processo, enviam para o editor do podcast, os áudios gravados com as suas contribuições.
04 No dia da aula, após um debate mediado com o professor, temos a emissão do podcast direto da plataforma Youtube. Todos os envolvidos conferem as suas reflexões justapostas ao lado da narração do jornalista, do professor e dos demais convidados.
05 Abre-se espaço para debate.
06 Na finalização, os estudantes recebem o card, a legenda e demais conteúdos para postarem em suas redes sociais, status do WhatsApp, além de outras formas de compartilhamento com suas agendas de contato.
07 No prazo de 24 horas, recebem o certificado por e-mail e inserem em seus registros profissionais, para ampliação das já mencionadas habilidades técnicas curriculares, aumentando as chances de conseguirem vagas almejadas nos processos seletivos que participam.
Assim, na semana seguinte, partimos para o mesmo ciclo, com outro tema, outro filme, em geral, outra abordagem. Desta maneira, os estudantes protagonizam a construção da aula, sentem-se motivados por construírem conteúdos midiáticos, situados na esfera tecnológica, material que sai dos muros da sala de aula e pode ser conferido, na galáxia da internet, por qualquer outro interessado em compreender a temática de sua produção. É um processo de exercício cidadão e desenvolvimento de habilidades mais avançadas, indo além da memorização, do engessamento de práticas, transformação da sala de aula num palco para encenação do conhecimento.
Confira a proposta completa no projeto abaixo:





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